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Atenção aos sintomas do Alzheimer!

Diagnóstico precoce do mal pode ser determinante para uma vida mais digna

3.10.2017 | por Thassio Borges - Equipe Coração e Vida

Se existe algo unânime entre as pessoas no que diz respeito ao convívio familiar é a conclusão de que ver (e conviver com) um portador da doença de Alzheimer em seus estágios mais avançados pode ser descrito como a personificação da tristeza. Observá-lo perder sua autonomia, esquecer-se de hábitos simples e desconhecer parentes e amigos, traz uma sensação de impotência e gera inquietação, tanto para saber como será a evolução do quadro clínico quanto para entender se os parentes mais próximos também poderão desenvolver a doença futuramente.

Por ser degenerativa, a doença não regride em seus sintomas e, nos estágios mais avançados, praticamente, transforma a pessoa em outra, tamanha é a diferença entre os velhos e os novos hábitos. Ainda que a Medicina tenha evoluído sensivelmente nas últimas décadas, o tratamento do Alzheimer deve obedecer uma série de procedimentos, de modo a permitir que o portador da doença tenha um final de vida mais satisfatório.

Foto: Shutterstock

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Tatiane Pan, coordenadora do Ambulatório de Neuroclínica do Hospital Assunção, da Rede D’Or São Luiz, costuma usar uma metáfora para explicar os cuidados com a doença para aqueles que acompanham de perto o sofrimento dos pacientes.

“[O tratamento] da doença de Alzheimer sem a opção pelos medicamentos é como um carro em uma ladeira sem o freio de mão puxado. Ele desce muito rápido. Já o paciente com Alzheimer que recorre ao tratamento pode ser encarado também como um carro, parado em uma ladeira, mas com o freio de mão puxado. O carro pode até descer, mas será muito pouco e de forma mais devagar. A gente, [no entanto], não consegue dar ré nesse carro. Ou seja, não é possível prometer reversão do quadro, melhora cognitiva do paciente, nem mesmo garantir que ele voltaria a fazer aquilo que antes fazia. O intuito do tratamento é a não evolução da doença”, explica Tatiane.

A origem documental da doença de Alzheimer deriva dos primeiros anos do século passado. Segundo dados da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAZ), o primeiro médico a descrever a desordem foi Alois Alzheimer, em 1906. Graças a seu trabalho, seu nome foi associado à doença, tal qual entendemos atualmente.

Naquela época, o médico foi o responsável por estudar a história da paciente Auguste Deter, uma mulher que, aos 51 anos, desenvolveu um quadro de perda progressiva de memória, desorientação, distúrbio de linguagem e incapacidade para cuidar de si própria. Após a morte de Auguste, aos 55 anos, Alois examinou seu cérebro e descreveu o que hoje consideramos características essenciais da doença.

Tatiane rechaça a percepção de que a doença de Alzheimer esteja aparecendo em pessoas cada vez mais jovens. De acordo com ela, o que tem ocorrido atualmente é um diagnóstico da desordem em seus estágios iniciais, o que acaba coincidindo com uma faixa etária entre 45 e 55 anos. Identificar o problema logo no começo é essencial para que o tratamento surta efeito e retarde os efeitos do mal de Alzheimer.

“[Hoje] Conseguimos fazer o diagnóstico antes da fase grave da doença. Antigamente, o senso comum era de que a perda de memória do idoso era normal e própria de sua idade. Posteriormente, percebiam-se problemas comportamentais [nesse idoso], como agressividade. Aí então você percebia a doença, numa fase grave e tardia, geralmente aos 70, 80 anos, de um paciente que iniciou os sintomas com 50 ou 60. O diagnóstico deve ser feito na faixa entre 50 e 55 anos, o que hoje corresponde a uma pessoa relativamente jovem, mas os sintomas iniciais já podem aparecer”, explica.

Para esse primeiro atendimento ao possível portador do mal de Alzheimer, é importante notar se o esquecimento da pessoa tem sido, de fato, constante e se tem lhe causado alterações significativas na rotina. Tatiane explica que os primeiros sintomas da doença podem ser percebidos na pessoa que deixa de cumprir atividades até então rotineiras, como caminhar com o cachorro, e também em tarefas simples, como anotar um recado telefônico. A pessoa atende ao telefone, ouve o recado, mas não se lembra de repassá-lo a quem de destino.

Quando essas situações passam a se repetir, é preciso buscar orientação médica, pois são sintomas que extrapolam um período de cansaço e estresse que podem atingir qualquer pessoa.

“É preciso prestar atenção se a perda de memória está sendo muito frequente e se está trazendo algum tipo de disfunção, fazendo com que a pessoa venha a perder até as suas responsabilidades sobre aquilo que ela sempre teve. Essas disfunções vão se acumulando e podem verificar mais para frente um processo de distúrbio de comportamento. A pessoa começa a apresentar agressividade tanto verbal quanto física, pode haver algo relacionado a uma hipersexualidade, quando a pessoa começa a perder o chamado moralismo. E nas fases mais graves, é possível que ocorram alucinações visuais ou auditivas”, completa.

De acordo com Tatiane, os sintomas também podem piorar graças a algum episódio de cunho emocional. O paciente que perde sua esposa, por exemplo, pode ter seu quadro piorado em um espaço de tempo mais curto. Não significa, no entanto, que foi o episódio de cunho emocional o causador do mal de Alzheimer. Trata-se de algo responsável por acelerar e maximizar o processo.

Após o diagnóstico do mal de Alzheimer, o tratamento dependerá sensivelmente do estado da doença no paciente. Se estiver no início, é possível usar medicamentos e recomendar atividades que têm o objetivo de retardar o agravamento dos sintomas.

Se a doença já está em seus estágios avançados, pode ser recomendado um cuidado mais próximo e efetivo do paciente, que perde suas capacidades mentais para realizar tarefas cotidianas.

“[Ao familiar cabe] Aceitar o diagnóstico, de uma certa forma, e iniciar o tratamento. O acompanhamento médico será importante. E é preciso também que os familiares busquem se informar sobre o assunto em locais adequados e confiáveis, como, por exemplo, a Associação Brasileira de Alzheimer”, explica Tatiane, que também aponta a hereditariedade da doença.

“Infelizmente, é uma doença hereditária. Mas ainda não conseguimos prever qual dos filhos daquele paciente desenvolverá a doença futuramente”, finaliza.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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