Coração e Vida | Depois da queda, as novas vitórias de Fernando Fernandes - Coração e Vida

Depois da queda, as novas vitórias de Fernando Fernandes

Como encarar a deficiência física é essencial na vida de quem tem as limitações impostas a si – como aconteceu com o atleta, que acaba de lançar um livro

30.08.2017 | por Flávia Pegorin - Equipe Coração e Vida

A rotina de ter uma limitação física é, obviamente, muito difícil. A começar pela aceitação de uma condição que, muitas vezes, não é de nascença, surgindo em algum ponto da vida e revirando todas as perspectivas de um ser humano. Essa é a premissa de um livro que acaba de chegar às lojas e que, como poucos, apresenta o drama – e principalmente a volta por cima – de uma pessoa com lesão.

“Inquebrável” (Editora Paralela, 238 páginas) é obra do esportista Fernando Fernandes com o jornalista Pablo Miyazawa. Fernando se tornou conhecido do público como modelo, participante do reality show Big Brother Brasil e, mais recentemente, como paratleta da canoagem. E decidiu contar, no livro, sua trajetória de tantas conquistas – muitas delas, após o acidente que lesionou sua coluna – para ser, também, uma luz para outros que passam por isso.

Foi em julho de 2009, prestes a se consagrar como modelo exclusivo de uma grife de luxo, que Fernando sofreu um acidente de carro, lesionou a coluna e perdeu os movimentos das pernas. Um ano e um mês depois, o rapaz sagrava-se campeão mundial de paracanoagem.

O livro traz um relato emocionante, em primeira pessoa, que mostra como o rapaz, apaixonado por esportes desde criança, conseguiu encarar a tragédia e se transformar em um vencedor. Pungente, o livro tem um traço importante: inclui passagens do diário que Fernando escreveu desde quando ainda estava no hospital, dias depois do acidente.

Pesquisa

A última Pesquisa Nacional da Saúde realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que 45 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência. São situações que envolvem problemas auditivos, visuais, intelectuais e de locomoção.

O último quesito, sozinho, corresponde a 1,3% de toda a população brasileira – e quase a metade dos deficientes físicos tem grau considerado “intenso” ou “muito intenso” de limitações. Mas isso tudo são estatísticas. E há muito mais o que pensar e fazer, de fato, na vida diária de uma pessoa com deficiência.

“Os acidentes automobilísticos e com armas de fogo têm sido as principais causas de aquisição de deficiência permanente no Brasil. E quem se vê nessas situações costuma passar por vários estágios antes de se ajustar a uma nova etapa de vida”, explica o psicólogo Ayrton Brancante, de São Paulo.

“As fases vão do choque à negação, raiva, depressão, defesa, expectativa e, só então, uma serenidade para lidar com os fatos”, completa.

Fernando teve uma recuperação de bastante reflexão (o que se percebe pelo seu diário) e cercado por amigos, parentes e, sobretudo, muita força de vontade. Sobre a vida hoje em dia, ele conversou com o Coração & Vida.

C&V: Dentro na sua rotina, qual é maior desafio de ser cadeirante hoje em dia?

Acho que o maior desafio… são todos [risos]. Já saindo de casa, é preciso pensar sobre o lugar onde eu vou, como chegar lá, se vai haver acessibilidade, tudo é relativamente mais complicado. Mas também é preciso encarar o novo e o obstáculo. Sempre que eu me proponho a fazer algo, tenho que pensar que, sendo cadeirante, vai ter um desafio. Além disso, tem a própria lesão medular, que pede uma atenção ao corpo com mais cuidado – principalmente da cintura para baixo, onde eu não tenho sensibilidade, e sobre o aparecimento de escaras, machucados… Qualquer coisa mínima pode virar algo grande pela falta de circulação sanguínea.

C&V: Como as pessoas que convivem contigo lidam com a sua condição?

As pessoas lidam da forma mais natural possível porque eu imponho essa condição. Eu não aceito que me tratem de outra forma que não a mesma forma que eu trato as outras pessoas. Então, acho que passa a ser algo natural para todo mundo que convive comigo.

C&V: O esporte teve um papel crucial na sua recuperação, certo? O que ele fez de melhor por você?

O esporte me devolveu justamente o que eu mais precisava, que era a sensação de ter capacidade depois que eu me vi sentado em uma cadeira de rodas sem mexer as pernas. Trouxe a sensação de ser, sim, um cara capaz, ágil, forte, um cara que sempre gostou do esporte e que teve que reencontrar esse caminho por outros meios, em outras maneiras de ter as sensações ligadas à liberdade. Sempre de uma forma nova, porque, por mais que eu tenha a referência [esportiva], é preciso começar de novo. Às vezes, alguém com a mesma lesão não encontra a mesma maneira de retomar a vida. Eu tive que buscar novos jeitos de praticar.

C&V: Contar sua história no livro, de alguma maneira, ajudou na superação?

Não exatamente. Não ajudou na superação, mas contar a história ajudou – mais pensando nos outros do que em mim mesmo. O livro surgiu a convite do Pablo [Miyazawa, jornalista, coautor de “Inquebrável”], que me conhece desde a infância. E eu achei importante que, na hora de passar tudo para o papel, fosse com alguém que tivesse uma referência sobre a minha vida de uma forma mais completa. Queríamos era gerar informação e desmistificar um pouco essa questão da deficiência, para as pessoas não acharem que tudo sobre isso é algo pesado. É difícil? É. Mas é preciso tornar a vida mais leve de alguma forma. Se eu puder “limpar” um pouco esse caminho das pedras, ótimo.

C&V: Como funciona sua rotina médica?

Eu já não preciso ter uma rotina médica e fisioterapêutica há bastante tempo, desde que deixei o Sarah [Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, onde fez parte de seu tratamento pós-acidente]. Mas, como eu disse, é preciso ter muitos cuidados. Como lesionado medular, tenho que ser muito mais atento aos sinais do corpo, sempre fazer exames para saber como estão bexiga, rins, toda a parte funcional. Há também a questão da pele, que é uma coisa muito séria para lesionados medulares. Posso ser o cara mais forte e potente nos membros com sensibilidade, mas nos membros sem sensibilidade, tenho que me tratar como uma criancinha recém-nascida – qualquer coisinha que eu não veja ou não sinta pode trazer um problema. Mas como a lesão medular não é uma doença, e sim uma condição, não existe um “tratamento”. Eu tenho que acompanhar os fatores negativos que ela traz. A não ser quando pensamos numa cura por meios que ainda não são tão reais. Mas eu acho que esse é meu papel como atleta e cidadão: tentar transformar um pouco esse quadro até para que haja investimentos que busquem uma possível cura para lesões medulares.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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