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Esquizofrenia: O que você realmente sabe sobre a doença?

9.11.2017 | por Coração e Vida

Por Maurício H. Serpa e Maria Alice Fontes

A esquizofrenia é uma doença que afeta cerca de 1% da população mundial. Ouvimos muito pouco sobre ela nos meios de comunicação e, quando surge em filmes e novelas, é, em geral, retratada de forma estereotipada e preconceituosa, sendo na maior parte das vezes associada à violência e à perversidade. Alguns até acreditam ser consequência de uma falha do caráter dos que padecem deste transtorno mental.

Infelizmente, não somos informados sobre o conhecimento construído por décadas de pesquisa sobre esta intrigante doença. Sabemos hoje que a esquizofrenia provoca uma série de mudanças na estrutura e no funcionamento cerebrais, assim como temos bons tratamentos que possibilitam o controle dos sintomas.

Maria Alice Fontes e Maurício H. Serpa - Foto: Divulgação

Maria Alice Fontes e Maurício H. Serpa – Foto: Divulgação

A pior consequência da desinformação e do preconceito é impedir a pessoa que está doente de receber tratamento. Além de todo o sofrimento provocado pelos sintomas não tratados, sabemos que um dos principais fatores do mau prognóstico da doença é a duração entre o início dos sintomas e o início do tratamento.

Ou seja, quanto mais tempo se fica sem tratar, mais difícil é a recuperação e mais intratáveis são os sintomas.

Então vamos deixar o preconceito de lado e entender um pouco mais sobre este importante problema de saúde!

O que são os transtornos psicóticos?

Desde a antiguidade, como podemos ler em passagens bíblicas e em outros textos históricos, há relatos de pessoas que haviam perdido a capacidade de distinguir o real do imaginário, ou melhor, entender a diferença entre os fenômenos ocorridos no mundo real e os fenômenos produzidos exclusivamente pela nossa mente. Esta perda de capacidade, que muitas vezes nos referimos vulgarmente como “loucura”, é o que os profissionais de saúde chamam de psicose ou, mais corretamente, de transtorno psicótico.

Quais são os principais tipos de sintomas psicóticos?

Nos quadros psicóticos, há dois tipos de sintomas mais conhecidos: os delírios e as alucinações. Um delírio é considerado uma alteração patológica do juízo, sendo definido como uma ideia fixa, irreal, impossível e que não pode ser combatida pela argumentação lógica. Podemos citar, por exemplo, o delírio paranoico (persecutório) retratado no filme ganhador do Oscar de 2002 “Uma Mente Brilhante”. Nele, que narra de maneira romanceada a vida de John Nash, matemático norte-americano que ganhou o Nobel de economia em 1994, vemos o protagonista ser vítima da falsa ideia de estar sendo perseguido, em uma trama que envolveria espiões soviéticos e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Nash acaba por ser diagnosticado com esquizofrenia e passa a receber tratamento médico.

Já as alucinações são fenômenos causados por alterações de nossa sensopercepção: apesar de não haver nenhum estímulo físico real (como sons ou estímulos visuais), a pessoa tem a nítida certeza de estar percebendo (ouvindo ou vendo) algo que, em realidade, não existe. Por exemplo, no mesmo filme descrito acima, John Nash conversava com um agente do governo norte-americano inexistente. No entanto, há uma incorreção no filme: em geral, os pacientes não têm alucinações complexas, como ver e ouvir uma pessoa irreal. O mais comum é terem alucinações puramente auditivas, como vozes que falam de longe ou dentro da cabeça dos pacientes e que outras pessoas não conseguem ouvir.

O que é a esquizofrenia?

A esquizofrenia é o principal e mais frequente dos transtornos psicóticos. Acomete em geral adolescentes e adultos jovens, sendo um pouco mais frequente e ocorrendo mais precocemente nos homens.

A primeira apresentação mais clara da doença ocorre quando o paciente apresenta um surto psicótico, com sintomas como alucinações e delírios. No entanto, muitas vezes alguns sintomas e sinais inespecíficos podem ocorrer antes da fase aguda, como por exemplo isolamento social, dificuldades escolares, insônia, ansiedade e depressão.

Quais são as consequências de um episódio psicótico?

Após a recuperação do episódio psicótico, quando se faz o tratamento correto, é comum que muitos pacientes tenham bastante dificuldades de retomar seu funcionamento prévio. Por exemplo, há certa dificuldade de voltar a estudar, conseguir trabalhar e manter relações sociais. Isto se dá em função do que chamamos de sintomas negativos e cognitivos da doença: empobrecimento afetivo e dos desejos, prejuízos de memória, atenção e capacidade de desempenhar tarefas. E, se não se seguir um tratamento cuidadosamente, geralmente os pacientes voltam a apresentar novos episódios psicóticos. Ou seja, a esquizofrenia é uma doença crônica que precisa de acompanhamento médico contínuo.

Existem mudanças cerebrais na esquizofrenia?

Apesar de não termos completado ainda todo o quebra-cabeças para entender as causas e as mudanças cerebrais que estão ligadas à esquizofrenia, já temos um conhecimento sólido que nos permite entender seus mecanismos fisiopatológicos.

Alterações de sinalização do neurotransmissor dopamina em algumas partes do nosso cérebro parecem ser a causa básica para que os pacientes apresentem o surto psicótico. É por isso que algumas drogas, como maconha, anfetaminas e cocaína, que também modificam a liberação de dopamina nestas regiões, podem causar alucinações e delírios.

Os estudos de neuroimagem (ressonância magnética e PET, principalmente) também contribuíram muito para entendermos a doença. Através destes, sabemos que os pacientes com o transtorno psicótico apresentam menores volumes cerebrais, especialmente de regiões com o hipocampo e o lobo frontal, assim como aumento dos espaços liquóricos cerebrais. Ou seja, a doença tende a machucar o cérebro, assim reduzindo seu tamanho. Além disso, a conectividade entre regiões cerebrais está bastante afetada, assim como a ativação destas regiões em repouso ou durante a realização de tarefas.

A esquizofrenia tem um componente genético?

Sabe-se hoje que alterações genéticas são muito importantes para o desenvolvimento da doença. É por isso que pessoas cujos familiares desenvolveram a doença têm uma chance maior de também apresentá-la. E não há apenas um gene responsável pelo risco de desenvolver a doença, mas vários genes que conferem tal chance.

Quais são as principais medidas de tratamento?

A medida principal no tratamento dos pacientes é a utilização de medicações chamadas antipsicóticos (ou neurolépticos), como a Olanzapina, o Haloperidol e a Clozapina. Estes agem bloqueando os receptores neuronais de dopamina, o que leva à remissão dos sintomas psicóticos (alucinações e delírios). Em geral, há uma boa resposta às medicações e, em alguns dias/semanas, o paciente deixa de apresentar os sintomas da fase aguda da doença.

Quais os principais desafios no tratamento da esquizofrenia?

Atualmente, o grande desafio da esquizofrenia é tratar os sintomas da fase de estabilidade (ou seja, fora dos surtos), que são os ditos sintomas negativos e cognitivos da doença. Estes são os sintomas que atualmente mais prejudicam os pacientes, muitas vezes os incapacitando para seu desenvolvimento social, acadêmico e profissional. Há muitas pesquisas investigando tratamentos biológicos para tais grupos de sintomas, como estudos com a Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC), que é uma ferramenta bastante promissora. Além disso, nesta fase da doença, o acompanhamento em psicoterapia é bastante importante para auxiliar o paciente a retomar suas atividades e relacionamentos.

* Diretora da Clínica Plenamente, Maria Alice Fontes é formada em Psicologia pela PUC-SP, doutora em Saúde Mental pelo Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e mestre em Ciências pelo Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina. Também é especialista em Terapia Cognitiva pelo Beck Institute of Cogntive Therapy (Philadelphia, EUA). 

* Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Mauricio H. Serpa fez residência em Psiquiatria pela Hospital das Clínicas da FMUSP e doutorado em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da FMUSP. É pesquisador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria, do Laboratório de Neurociências e do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Neurociência Aplicada. Também atende nos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês, além de ser associado à Associação Brasileira de Psiquiatria.

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5 comentários

  1. helia matos riker disse:

    Que Deus abençoe vcs nas suas pesquisas. …minha família sofre com esse mal, uma tia faleceu com essa doença, tenho um tio que sofre desse mal e também uma irmã. …fico muito triste quando a vejo nessa situação. …minha maior preocupação são com meus filhos. …temo por eles..Então queria saber:o que eu poderia fazer pra “evitar que aconteça com eles, porfavor me ajudem. ..desde já agradeço

  2. Selma Aparecida Mendes da Rocha disse:

    Muito bom conhecer melhor sobre a doença, eu tb já tive surto e é uma situação muito estranha, minha preocupação é pelo meu filho, que assim como eu já passou por depressão, não sei se está associada.

  3. Aparecida Gallo disse:

    Agradeço, a Deus profissionais maravilhoso,comprometido como vocês. Durante 16 anos tive surtos,4 internações foram anos difícil..Tomei vários medicamentos ,sempre quando pensávamos que estava dando certo. Tudo voltava a estaca zero.. Meu médico muito competente me encaminhou para terapia, depois de muita resistência da minha parte. Estou a 2 anos ,com a mesma psicóloga, tudo mudou para melhor.. hoje continuo o tratamento mas as crises estão bem controladas. E consigo ter

  4. Maurício Henriques Serpa disse:

    Olá, Helia,

    Sua preocupação é bastante importante. Atualmente há uma série de instituições no mundo estudando formas de se evitar que pessoas com risco alto para apresentar esquizofrenia (como os familiares de pacientes) desenvolvam o transtorno.

    Certamente o maior fator de risco controlável para desenvolver a doença é o uso de substâncias psicoativas, em especial a maconha. Vale também ter uma vida equilibrada, com atividade física, descanso/lazer, bom sono e boa alimentação, para reduzir o estresse mental.

    Já para pessoas que apresentem sintomas mais discretos ou pessoas com histórico na família e que estejam cursando com perdas de sua capacidade funcional (escola, faculdade, trabalho), acompanhamento médico e psicológico podem diminuir a conversão para a doença.

    Abraços

  5. nilma de Oliveira soares disse:

    Estou fazendo meu TCC em cima do tema

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