A força de um trabalho conjunto

18.04.2017 | por Coração e Vida

Por Roberto Kalil Filho

A Medicina, acredito, é feita de conhecimento adquirido durante o percurso e de alguns sentimentos que denominamos de vocação, onde se incluem o altruísmo e as posturas humanísticas. No meu caso, a vocação surgiu primeiro, na forma de um microscópio, desses bem simples, o qual, pelo valor afetivo, ainda guardo no meu consultório, com honras de relíquia. Ganhei aos sete anos, dos meus pais. Alguma coisa dentro de mim dizia que aquele objeto mudaria minha vida, aliás, guiaria minha vida. Foi o que, de fato, aconteceu.

O cardiologista Roberto Kalil Filho - Foto: Roberto Setton

O cardiologista Roberto Kalil Filho – Foto: Roberto Setton

A ciência conquistou-me quando eu ainda nem sabia que aquilo se chamava ciência. Conclusão: eu seria médico, queria ser e haveria de ser. Não havia uma propensão dinástica da família para a Medicina, apenas o marido da irmã de meu pai, o professor Fúlvio Pileggi, cardiologista extraordinário, homem exigente e profissional rigoroso.

Cursei Medicina na Universidade de Santo Amaro (Osec), hoje Universidade de Santo Amaro (Unisa). Após a faculdade, prestei concurso e iniciei a residência médica no Hospital das Clínicas. Foi lá que conheci o Instituto do Coração (InCor), instituição do grandioso complexo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Fiquei fascinado pela integração mágica que brotava a cada metro quadrado daquele templo: atendimento ao paciente, ensino e pesquisa complementavam-se em uma harmoniosa moldura de humanismo. Era ali mesmo que eu queria pisar fundo na minha carreira.

Em fevereiro de 1987, matriculei-me na residência médica de cardiologia do InCor. Cada dia, cada mês de meu estágio, eu me congratulava: o que tinha sentido naquele passeio pelo InCor não era delírio, era pura realidade. Aquele era o meu lugar. A descoberta de que o metabolismo cardíaco poderia ser entendido por meio de métodos de imagem interessou-me: precisava sair do País e ir para Baltimore, na John Hopkins University. E assim o fiz.

Fui convidado a ficar por lá, mas queria voltar para casa, para o Hospital das Clínicas e para o InCor. Em abril de 1991, fui admitido como médico-assistente do InCor, para atuar na Unidade Coronariana (UCO). Mas ficou o desafio: eu havia de introduzir no Brasil o método espectroscopia por ressonância magnética. E consegui. Tempos depois, sob minha supervisão, o InCor inaugurou a primeira máquina de espectroscopia por RM da América Latina para avaliar o metabolismo das células do coração.

Formei-me doutor em Medicina em 1994 e livre-docente em 1995. Em 2011, tive a honra de me tornar professor titular da Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Centenas de residentes e dezenas de pós-graduandos passaram pela minha orientação. Ao longo de minha vida profissional, adquiri a plena convicção de que, para um profissional da Medicina e da Ciência, é a qualidade dos seus discípulos que o qualifica.

Mas é a força do trabalho conjunto que me move desde o início de meu aprendizado profissional. A ciência exige atualização permanente. Desde cedo na minha carreira, mantenho uma estimulante troca de informações com outros profissionais da pesquisa médica e da atividade clínica.

Sou filho do InCor, um hospital que impulsionou minha carreira médica e me ensinou a ver o ser humano com os olhos da sensibilidade e da solidariedade. Um gigante de 500 leitos e milhares de funcionários, que beneficia a um sem-fim de pacientes a cada ano.

Uma grande instituição médica como o InCor consolida-se sobre o trinômio: assistência, ensino e pesquisa. E para atingir essas metas, é necessário que qualquer instituição, incluindo ele próprio, esteja recheada de líderes, dos quais se espera que tenham a visão de criar e influenciar positivamente as novas gerações de especialistas, impregnados por valores maiores. Deles também se espera que concebam ambientes propícios e saiam à busca de recursos que permitam suportar com robustez todas essas missões, com plena consciência de que não se pode priorizar um ou outro aspecto.

Hoje, a graduação em Medicina possui um desafio: aprimorar o intercâmbio de informações entre as áreas básicas e clínicas do curso médico. A grade curricular deve refletir tal demanda, modificada e dinamizada para integrar vertical e horizontalmente as diversas disciplinas. A informatização e utilização de ferramentas tecnológicas devem ser priorizadas.

Ao percorrer os corredores do InCor, sinto-me pleno na vida,  por fazer parte de uma instituição reconhecida como um dos grandes centros de cardiologia do mundo, orgulhando todos aqueles que dele fazem parte, que atende a população brasileira com tecnologia e humanismo, além de capacitar milhares de pessoas para cuidar da saúde do nosso país e criar ciência de qualidade.

Em 2017, temos muito a comemorar. O InCor completa 40 anos de existência como uma das maiores instituições de cardiologia do mundo, atualmente reconhecida como referência em cirurgia cardíaca, procedimentos cardiovasculares e torácicos de alta complexidade, além de uma gigante da inovação científica e do ensino.

É motivo de orgulho pertencer a uma Instituição dotada de um espírito único de humanismo, de compaixão ao ser humano sem igual e que, ao mesmo tempo, gera ciência e tecnologia e oferece assistência médica da mais alta qualidade. Espero continuar contribuindo para que essa realidade seja perene e que o InCor sempre seja motivo de orgulho para todos os brasileiros.

* Roberto Kalil Filho, cardiologista, é professor titular da Faculdade de Medicina da USP e diretor de cardiologia do Instituto do Coração (InCor) e do Hospital Sírio-Libanês

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