Guia da saúde bucal: como manter dentes, gengiva e língua livres de problemas

Um corpo começa a ser saudável pela boca – desde criança, com escovação três vezes ao dia e acompanhamento profissional

9.12.2016 | por Flávia Pegorin - Equipe Coração e Vida

Existe aquela regra de ouro que qualquer um deve ter ouvido desde criança: a saúde começa pela boca. Porta de entrada do organismo, cuidar do que passa por ela no aspecto da alimentação é realmente uma questão central para a saúde geral de qualquer pessoa; e cuidar da boca, como um todo, vai além disso.

A atenção com a higiene bucal é um caminho fundamental para evitar doenças que podem afetar dentes e gengiva, passando pelo surgimento de cáries, mau hálito até problemas mais graves. E aí, quando se fala em cuidados com a boca, prevenção é a palavra de ordem.

Parece simples – todo mundo é capaz de lembrar sobre a importância da escovação, por exemplo –, mas esse é um compromisso diário e que vai além do uso de pasta e escova. O hábito da higienização deve ser observado e incentivado em família desde cedo e para sempre, sem pressa e com eficiência.

A odontopediatra Simone César, de São Paulo, conversou com o Coração & Vida para falar sobre pontos cruciais dessa tarefa de manter a boca sempre em ordem.

Coração & Vida: Como deve ser o cuidado ideal e básico para manter a saúde bucal?

Existem cinco pontos fundamentais para a manutenção da saúde bucal.

– Hábito de escovação mais fio dental: escovar os dentes três vezes ao dia, usando creme dental com flúor, tem a função de remover a placa bacteriana, que é a principal causadora de problemas como cáries e gengivites. O uso fio dental é responsável pela limpeza da placa que fica entre os dentes, onde a escova não chega. Sem o uso do fio dental, deixa-se de limpar 35% da placa.
– Alimentação: comidas muito doces estimulam que os ácidos produzidos pela placa bacteriana atuem sobre os dentes. Já comer os alimentos com fibras faz bem para a saúde bucal, criando um contato que ajuda a limpá-los, como, por exemplo, maçã, cenoura, pera e pepino.
– Trocar a escova de dentes a cada três meses: as cerdas desgastadas ou deformadas perdem sua eficácia de limpeza depois desse período.
– Escovar a língua: para evitar acúmulo de resíduos e proliferação de bactérias.
– Consultar o dentista regularmente: fazer uma consulta a cada seis meses garante que problemas sejam diagnosticados, muitas vezes, antes de causar algum sintoma.

C&V: Precisamos falar sobre gengivites e cáries: existem pessoas com “maior tendência” a sofrer com elas? Como prevenir?

Sim, existem algumas questões que criam maior tendência a desenvolver cáries em certas pessoas. Para começar, existe a capacidade “tampão” da saliva – a capacidade que ela tem de neutralizar os ácidos produzidos pelas bactérias. Assim, pessoas com baixo fluxo salivar têm maior tendência a desenvolver cáries (como pacientes que passam por quimioterapia, radioterapia e os fumantes). Pessoas que têm dificuldades na escovação e aquelas que escovam os dentes de forma incorreta, não removendo toda a placa bacteriana, também são mais propensas ao desenvolvimento de cáries.

É possível prevenir o aparecimento de cáries e gengivite aplicando os princípios básicos da higiene bucal mencionados antes.

C&V: No caso da gengivite, o estresse é um fator que contribui?

Pode acontecer, sim. O indivíduo estressado acaba, normalmente, executando uma má higienização dos dentes – e, muitas vezes, pelo seu estado, aumenta o consumo de tabaco e de bebidas alcoólicas. Tudo isso, junto, pode iniciar ou piorar um quadro de gengivite.

Foto: Shutterstock

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C&V: Com relação às crianças: os check-ups devem acontecer do mesmo modo que os adultos – com a mesma periodicidade, por exemplo? Qual o diferencial de um acompanhamento infantil?

Hoje em dia, os dentistas que cuidam da saúde bucal das crianças (odontopediatras) estão muito focados na prevenção ligada aos dentes de leite. Os check-ups podem acontecer a cada seis meses, como na fase adulta, porém esse intervalo pode ser reduzido por escolha do odontopediatra, de acordo com o perfil de cada criança. O mais importante é conscientizar os pais sobre a importância dos cuidados com os dentes de leite. Não é porque esse dente vai cair que não precisa de cuidados. Hoje sabemos que a saúde deles é fundamental para que os dentes permanentes também sejam saudáveis e tenham espaço para nascer.

C&V: Sobre os tantos tipos de cremes dentais e escovas disponíveis no mercado: isso influi muito? Existem modelos que fazem mesmo muita diferença?

O certo é escolher um creme dental que contenha flúor na composição e que a pessoa realmente se sinta bem quanto ao sabor (vale para adultos e crianças, porque é preciso que a escovação não seja um momento ruim). Fuja das pastas abrasivas, que podem danificar o esmalte, e das pastas clareadoras. Pessoas com dentes sensíveis devem usar pastas específicas para combater essa sensibilidade – e são muitas as opções no mercado nos dias de hoje.

Em relação às escovas dentais, opte sempre por utilizar aquelas com cerdas macias e cabeça pequena. Algumas pessoas acham que essa característica não remove bem os restos de alimentos. Mas isso é um engano. Cerdas médias ou duras, dependendo da força colocada na escovação, podem danificar o esmalte do dente, levando à sensibilidade. E o formato com cabeça pequena melhora o alcance até os dentes do fundo, permitindo que se realize movimentos circulares para melhor higienização.

Para quem usa aparelho dental fixo, também é necessário usar uma escova ortodôntica e interdental, ajudando a escovar melhor os dentes e o aparelho.

C&V: Escovas elétricas são boas opções? O que elas fazem de diferente?

Não é recomendado o uso frequente da escova elétrica para crianças. De vez em quando, até pode ser, mas a mecânica de escovação e realização dos movimentos corretos para uma melhor higiene são importantes durante o desenvolvimento dos pequenos.

Já para os adultos, a escova elétrica facilita a limpeza em pacientes com destreza manual limitada – elas têm o cabo maior que a escova manual e alguns modelos possuem um timer, ajudando a controlar o tempo de escovação (outras têm até sensores de pressão, que avisam quando você exerce muita força sobre os dentes). Por outro lado, como são aparelhos caros e mais complexos – e cuja vibração pode irritar e machucar a gengiva – o melhor, para pessoas saudáveis, seria usar mesmo uma escova manual.

C&V: O uso do fio dental deve acontecer de que maneira? Mais de uma vez ao dia? Ele pode, de algum modo, prejudicar as gengivas?

O uso do fio dental deve ser diário – e deve acontecer após, e não antes, da escovação. Com a correta escovação, as placas bacterianas presas entre os dentes ficam mais fáceis de serem removidas. O fio deve ser passado entre os dentes, com movimentos de cima para baixo, suavemente, com cuidado para não cortar ou machucar a gengiva. A medida é de 40 cm, enrolando nos dedos indicadores e deixando um espaço de 10 cm entre os dedos para realização da limpeza.

O uso frequente do fio dental impede aparecimento de cáries e tártaro entre os dentes, além de evitar o mau hálito e o sangramento da gengiva, que pode ficar inflamada pela presença de placa bacteriana.

C&V: Muitas pessoas estão optando por procedimentos de clareamento dental. É seguro ou mesmo recomendável? Produtos comprados em farmácias ou mercados podem ser usados?

Muitas pessoas optam por realizar clareamento dentário hoje em dia. E sim, qualquer pessoa pode realizar o clareamento, exceto mulheres grávidas, crianças menores de 15 anos e pacientes alérgicos a algum componente da fórmula.

Com relação a “enfraquecer os dentes”, isso é um mito. O clareamento consiste em uma reação química do gel clareador que age no pigmento que causa o escurecimento do dente.

Mas o clareamento precisa ser realizado pelo dentista. Produtos clareadores vendidos em farmácias, que permitem o uso não controlado pelo dentista, são um perigo.

O uso indiscriminado pode gerar efeitos colaterais, desde gastrite pela ingestão do gel clareador, sensibilidade dentária e até queimaduras na mucosa da boca, além de efeitos nocivos ao próprio dente. Portanto, o jeito certo de fazer um clareamento duradouro e seguro é com o acompanhamento de um profissional. Só o dentista pode indicar o melhor produto e o tempo de tratamento para cada pessoa.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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