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Hipnose no combate à dor crônica

Técnica complementar se torna mais popular, mas requer conhecimento e técnica por parte de quem aplica

14.09.2017 | por Thassio Borges - Equipe Coração e Vida

Um em cada cinco adultos sofre com dores crônicas, aquelas que persistem por mais de três meses, segundo dados da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor. A idade tende a ampliar a incidência e piorar as consequências deste tipo de dor, que parece resistir aos mais diversos tratamentos.

Quem sofre desse mal costuma mudar, de forma gradativa, a fisionomia, o jeito de andar, a estrutura emocional e, principalmente, a forma como vê a si próprio. A dor crônica castiga e aflige e, a cada tentativa frustrada de tratamento, aumenta a desesperança daqueles que precisam lidar com ela diariamente.

Foto: Shutterstock

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Nos últimos anos, vem ganhando espaço no meio médico, ainda que de forma discreta, um tipo de tratamento que garante apresentar bons resultados. A hipnose (também conhecida como hipnose clínica e dinâmica) no combate à dor crônica tem sido usada como um tratamento alternativo aos tradicionais, especialmente nos casos em que os outros meios não foram suficientes para promover qualidade de vida aos pacientes.

De acordo com a psicóloga clínica Vânia Calazans, hipnoterapeuta cognitiva e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pela Faculdade de Medicina da USP, a hipnose como tratamento alternativo contra dores não constitui algo novo.

Ocorre que a técnica passou a ser mais bem avaliada recentemente porque conseguiu se livrar de parte da imagem (negativa) que lhe foi atribuída após anos e anos sendo utilizada como prática circense ou lúdica.

“A hipnose ficou muito tempo no limbo, entendida como algo relacionado a show, a teatro, porque não se sabia exatamente o que acontecia no cérebro em estado de transe hipnótico. Com a evolução dos exames de imagem, se entendeu o que acontece. No estado de hipnose, acessamos essa área do cérebro responsável pela imaginação e a parte responsável pela tensão fica com a atividade reduzida. Hoje, a hipnose tem sido muito usada na área de saúde, pois dá excelentes resultados e é um tratamento barato”, explica Vânia.

A especialista explica que a hipnose pode ser descrita como um estado de relaxamento profundo, no qual o profissional responsável pelo tratamento consegue “acessar” a área cerebral que fica entre o sono e a vigília.

“Nesse estado de relaxamento, o psicólogo dá sugestões para o paciente, e ele aceita porque nesse estado cerebral não existe crítica. Apesar de o paciente estar acordado, ele está extremamente relaxado e passa a entender que as sugestões expostas pelo psicólogo são reais e estão acontecendo, de fato, com ele. O corpo então dá uma resposta fisiológica a esse estímulo, resultando no que chamamos de nova memória emocional”, afirma a especialista, explicando também como o tratamento é usado especificamente para dores crônicas.

“No cenário de dor, é possível usar uma técnica para que o paciente se sinta relaxado, calmo. Por meio da hipnose, ele consegue construir essa sensação de tranquilidade, de ausência de dor. Isso é ensinado ao paciente, que irá treinar também fora do consultório. A hipnose não tira a dor, porque ela é sempre sintoma de algo que não está bem no organismo. O que se faz é diminuir a intensidade da dor, modular esse problema”, completa.

Uma das técnicas usadas no combate à dor crônica consiste em desviar o foco de atenção do paciente da dor. Assemelha-se, por exemplo, à criança que é “convencida” pela mãe de que o machucado não é assim tão dolorido, de que a queda não foi assim tão feia. Quando se dá conta, a criança já está correndo novamente, sem nem recordar do machucado recente.

A hipnose como tratamento alternativo contra as dores pode ser usada por praticamente qualquer pessoa. As exceções ficam por conta, por exemplo, dos pacientes psicóticos.

De acordo com a psicóloga, é necessário fazer uma avaliação para garantir que o paciente está bem no âmbito psíquico antes que o tratamento seja iniciado.

“A hipnose trabalha com a sugestão. Se você tem um paciente que está com algum problema psíquico, emocional, poderá deixá-lo mais nervoso e preocupado a partir do tratamento com a hipnose”, complementa.

Além disso, pessoas mais céticas e extremamente racionais dificilmente conseguirão tirar proveito das técnicas de hipnose. É preciso, de fato, acreditar no tratamento, desenvolvendo empatia com o profissional que o aplica.

Vânia chama a atenção também para quem está apto a aplicar a hipnose no tratamento contra dores crônicas. De acordo com ela, ainda que a hipnose possa ser aplicada em praticamente todas as áreas da Medicina, é essencial que esse tratamento complementar seja realizado ou ao menos acompanhado por um profissional da área da Saúde. Esse apoio é muito importante para que a condição clínica do paciente seja considerada em sua totalidade, sem que haja qualquer descuido em relação justamente ao que tem gerado as dores crônicas.

“O paciente que tem dor crônica vive a sensação da dor basicamente o tempo inteiro. Ele passa a ter uma memória permanente da dor e não consegue se livrar dela. Sabemos que a dor é atencional, ou seja, se você presta atenção, você a sente [de forma mais intensa]. Se você se distrai, o cérebro não registra a sensação da dor”, completa Vânia.

Dessa forma, a hipnose acaba consolidando-se como mais uma alternativa contra a dor crônica. Para quem precisa conviver diariamente com esse mal, toda e qualquer ajuda profissional é válida.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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