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Precisamos falar sobre depressão pós-parto

Doença ainda convive com preconceitos que impedem o correto diagnóstico e tratamento

12.05.2017 | por Thassio Borges - Equipe Coração e Vida

A gravidez é um dos principais sonhos de boa parte das mulheres. Ainda assim, o desejo pelo nascimento de uma criança pode desencadear um quadro grave de melancolia e tristeza, conhecido como depressão pós-parto (DPP).

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A doença atinge, atualmente, cerca de uma em cada quatro mães brasileiras, segundo pesquisa da ENSP (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca), ligada à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Os números, entretanto, não impedem que as mulheres nesta condição ainda sejam tratadas com preconceito e discriminação.

A depressão pós-parto envolve sintomas que costumam aparecer, como o nome indica, logo após o nascimento da criança. As mulheres que apresentam a doença costumam relatar tristeza, desânimo, alterações do sono e apetite, humor deprimido, irritabilidade, sentimento de culpa, dificuldades de concentração e prejuízos de memórias.

Foto: Shutterstock

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Os sintomas são semelhantes aos apresentados em quadros “regulares” de depressão, mas a DPP envolve também questões ligadas ao próprio recém-nascido, tais como perda de energia e dificuldades para cuidar do bebê, perda do interesse ou prazer nos cuidados com o bebê (e também nas atividades de lazer e esportivas), bem como ansiedade e agitação em meio às tarefas tidas como cotidianas.

De acordo com o psiquiatra Joel Rennó Junior, diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria da USP e professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, ainda que os preconceitos contra os transtornos mentais tenham diminuído gradativamente, o tema ainda enfrenta resistência para o debate e o consequente diagnóstico e tratamento.

“A depressão pós-parto tem fortes componentes biológicos e sempre existiu, mas falar de transtorno mental ainda envolve uma série de preconceitos, infelizmente. Ao longo dos últimos anos tais preconceitos vêm gradativamente diminuindo, mas são ainda significativos. E os avanços científicos e sua divulgação crescente têm contribuído para o esclarecimento a respeito do tema na sociedade atual”, explica o especialista.

Para o psiquiatra, a depressão pós-parto tem ainda um componente agravante que está ligado à imagem idealizada que as pessoas têm da gravidez, como se o período fosse simplesmente composto por alegrias e felicidade genuína.

“Há uma espécie de ditadura da felicidade nesse período puerperal e as mulheres que se sentem tristes, desanimadas ou incapazes de cuidar de seus bebês momentaneamente por um quadro depressivo são estigmatizadas e até desqualificadas no papel de mães e esposas. Muitas podem sofrer caladas”, completa.

Maristela Temer, psicóloga do Hospital Sírio-Libanês, explica ainda que o nascimento do bebê desencadeia na mãe uma verdadeira montanha russa hormonal, facilitando a “instalação” de um quadro de depressão e stress.

“Entretanto, nem todas as mulheres deprimem após o parto. Entram aí as questões mais subjetivas como um nível de exigência muito alto consigo mesma [‘preciso ser ótima mãe, não posso falhar’],qualidade da relação do casal, suporte familiar, sentimento de inadequação para lidar com o filho, condições financeiras e tantas outras variáveis que facilitarão ou dificultarão a chegada deste bebê e o estado emocional da mãe”, avalia a especialista.

A pesquisa da Fiocruz foi publicada em 2016 e considerou entrevistas com 23.896 mulheres no período de 6 a 18 meses após o nascimento de seus bebês. No total, 26,3% das mulheres consultadas foram diagnosticadas com depressão pós-parto.

De acordo com Rennó Junior, algumas mulheres são mais vulneráveis às oscilações dos níveis hormonais que ocorrem imediatamente após o nascimento do bebê e isso tem sido o principal responsável pelo desencadeamento da doença. Maristela ressalta ainda que, apesar de não constituir uma regra, quem tem histórico de depressão deve estar mais atenta durante e após o parto.

“As oscilações hormonais, as emoções contraditórias que acompanham tanto a gravidez quanto a chegada de um filho, as mudanças no cotidiano, a privação de sono, tudo isto cria um terreno fértil para a depressão. Acontece que mulheres que nunca tiveram um humor mais deprimido, também podem apresentar depressão pós-parto. Importante dizer que depressão pós-parto é diferente de uma melancolia e uma tristeza que normalmente acompanham o nascimento”, avalia.

Cuidados específicos

A depressão, de uma forma geral, é conhecida atualmente como o mal do século. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), espera-se que ela será a doença mais incapacitante do mundo até 2020. Somente no Brasil, onze milhões de pessoas já foram diagnosticadas com a doença, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).

A prevalência maior é entre as mulheres (10,9%) do que nos homens (3,9%), mas a ocorrência de depressão em qualquer momento da vida não necessariamente levará a um quadro de depressão pós-parto após o nascimento das crianças.

A chance de ocorrência da DPP nestes casos, no entanto, é em torno de 30% a 50% superior na comparação com as mulheres que nunca apresentaram diagnóstico de depressão em algum momento de suas vidas.

O tratamento da depressão pós-parto, após o diagnóstico, dependerá do nível de gravidade da doença. Essa avaliação deve necessariamente ser realizada por um psiquiatra.

De acordo com Rennó Junior, o tratamento envolve desde técnicas de psicoterapias interpessoal e cognitiva comportamental até o uso de antidepressivos que só devem ser prescritos por especialistas no assunto. Isso porque nem todos os medicamentos deste tipo podem ser administrados durante a lactação.

“Hoje também há a estimulação magnética transcraniana [EMT] que parece ser muito promissora e com baixíssimo perfil de efeitos colaterais”, afirma o psiquiatra.

Além disso, o tratamento da depressão pós-parto envolve a garantia de um suporte à mulher nos primeiros dias e semanas do puerpério, de modo a ajudá-la no alívio do estresse com os cuidados do bebê e também auxiliando-a na organização do ambiente doméstico.

“É fundamental que [os familiares] procurem um psiquiatra especializado no assunto se os sintomas forem graves ou não passarem sozinhos em no máximo duas semanas a fim de que o mesmo avalie a paciente e faça um diagnóstico e tratamento corretos”, destaca Rennó Junior.

Em algumas situações, segundo o especialista, os quadros depressivos podem ser leves e autolimitados por um período de no máximo duas semanas e nessas situações não há sequer a necessidade de tratamento médico específico, apenas algumas orientações são importantes.

“São os quadros mais leves que denominamos de blues puerperal. Mas quem pode diferenciar um quadro leve e passageiro de blues de outro quadro psiquiátrico de DPP é apenas o psiquiatra”, completa.

É importante também mudar a (falsa) ideia que a depressão pós-parto estaria ligada a alguma fraqueza ou incapacidade da mulher enquanto mãe. O preconceito não encontra qualquer respaldo científico e serve apenas para continuar estigmatizando as mulheres que desenvolvem um quadro de depressão pós-parto em um momento tão significativo, delicado e sensível para elas próprias.

“Minha sugestão é que tanto a grávida quanto os familiares prestem atenção, já durante a gravidez, a sintomas como tristeza, desânimo, angústia e ansiedades exacerbadas. Muitas vezes, é possível antecipar a possibilidade de uma depressão pós-parto garantindo uma experiência melhor para a mãe e o bebê”, finaliza Maristela.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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3 comentários

  1. Regina Rebello disse:

    Acompanho o Prof Dr Joel há algum tempo.Seus artigos são de extrema importância ,informativos de facil entendimento para leigos…Obrigada Dr Joel

  2. Renata Dip disse:

    Artigo muito esclarecedor! Não sabia que a incidência de depressão pós parto era tão frequente assim. Parabéns pelo artigo.

  3. Silvia Rebello Mariano da Costa disse:

    Desconhecia, e não escondo minha surpresa ao tomar conhecimento do número de mães acometidas por DPP.
    Também me assusta muito o fato de ainda existir, nos dias de hoje, tanto preconceito . . . . . . INFELIZMENTE!
    Dr. Joel Rennó Júnior, sou admiradora do seu trabalho, capacidade e competência.

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