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Privacidade e respeito na medicina

Qualquer que seja a situação, o direito à privacidade e sigilo de informações são propriedades do paciente e cabe aos profissionais de saúde zelar por isso

9.02.2017 | por Coração e Vida

Por Raul Cutait

Qualquer que seja a situação, o direito à privacidade e ao domínio das informações deve ser sempre entendido como propriedade do paciente e, quando este não puder se manifestar, de seus familiares. Do ponto de vista ético, cabe aos médicos e demais profissionais de saúde, assim como aos hospitais, zelar pelo respeito à privacidade do paciente. Isso é um dogma! As informações pessoais às quais, por sua função, estes têm acesso, devem sempre ser encaradas como sigilosas.O que ocorreu nestes dias com Marisa Letícia é inaceitável. Ninguém poderia divulgar exames e, pior ainda, nenhum médico poderia fazer comentários desairosos sobre uma paciente, independentemente de quem quer que seja. Imaturidade de jovens médicos? Querer dar uma de bacana para seus coleguinhas de whatsapp? Incompreensão da ética médica? Desvio de caráter? Qualquer que seja a leitura, não cabe esse comportamento em alguém que fez o juramento hipocrático. Convicções políticas, religiosas, étnicas e quaisquer outras não podem jamais entrar na pauta!

Esse episódio me faz refletir sobre o que nos espera pela frente como sociedade. A avalanche de escolas médicas que vêm sendo abertas de maneira irresponsável, sem levar em conta que não existem professores suficientes para proporcionar a devida formação para profissionais que terão sobre seus ombros a responsabilidade de cuidar da saúde das pessoas, é o prenúncio de que, cada vez mais, teremos médicos colocados no mercado de trabalho sem o adequado preparo técnico e, talvez pior, sem a formação humanística e ética imprescindíveis para o exercício da medicina.

Finalmente, um comentário sobre as redes sociais. Diferentemente da imprensa escrita, elas tudo aceitam e têm um poder quase que incontrolável de machucar e ofender pessoas. Mentiras ganham cara de verdades; fotos e vídeos engraçados rotulam pessoas muitas vezes de forma pejorativa. É fato que todos têm o direito de usar essa nova mídia para informação e diversão, mas sem irresponsabilidade. Sem fazer mal para quem quer que seja. Hoje você agride, talvez amanhã poderá ser sua vez de ser agredido.

* Raul Cutait é professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP e cirurgião do Hospital Sírio-Libanês.

O artigo foi publicado na Veja.com.

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