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Tristeza ou depressão?

Distinguir uma da outra é fundamental e pode evitar equívocos ao lidar com quem enfrenta um momento delicado

22.09.2017 | por Thassio Borges - Equipe Coração e Vida

A depressão é atualmente uma das doenças que mais incapacita as pessoas em todo o mundo, enfraquecendo-as a ponto de comprometer seriamente suas vidas no âmbito pessoal, profissional e, principalmente, emocional.

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Ao abordamos a doença, no entanto, é extremamente importante buscar diferenciar a depressão clinicamente diagnosticada da tristeza que acomete as pessoas pontualmente, geralmente motivada por episódios que são tristes, mas não deixam de ser naturais da vida.

Foto: Shutterstock

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Graças, principalmente, ao estigma social que ainda envolve a depressão, muitas pessoas relutam em buscar ajuda profissional, seja por medo, por vergonha ou até mesmo por não reconhecer em si os sintomas da depressão.

Graças a este cenário, não é incomum que os pacientes – e também os familiares e amigos – passem a diagnosticar a si próprios, interpretando a depressão como uma “tristeza comum” e vice-versa. Afinal, quais são as diferenças entre esses dois estados? Para chegar a uma resposta possível para esta questão, é preciso observar e levar em consideração alguns pontos importantes.

Segundo Antônio Helio Guerra Vieira Filho, psiquiatra do Hospital Sírio-Libanês, somente notar que alguém está triste não é o suficiente para diagnosticá-lo com um quadro clínico de depressão.

“A falta de prazer e alegria em fazer as coisas pode não vir acompanhada de tristeza, necessariamente. A depressão pode apresentar sintomas como excesso ou perda de sono, alterações no apetite, pensamentos pessimistas, dificuldade de concentração e quadros de ansiedade, por exemplo”, explica.

Por um lado, o sentimento de tristeza pode ser encarado como algo natural, que não compromete as principais funções do indivíduo e acaba passando com o tempo. Por outro, pode ser persistente e durar mais do que duas semanas. Neste caso, é recomendado procurar ajuda profissional.

De acordo com Elton Yoji Kanomata, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein, um quadro de depressão não tratado pode evoluir seriamente, fazendo com que a pessoa seja exposta a alguns riscos.

“A depressão possui graduações para seus estados classificados como: leve, moderado e grave. Em estágios mais graves, a pessoa pode deixar de lado deveres e responsabilidades, se expor a condições precárias de autocuidado e, talvez a consequência mais impactante, o agravamento pode levá-la ao suicídio”, avalia.

O luto

Processo natural vivido pelo ser humano durante sua vida, o luto é outro momento sempre presente nas discussões que envolvem depressão e tristeza. De fato, um episódio de luto pode ser um fator desencadeante da depressão. O tempo da tristeza causada pela perda de alguém próximo, um ente querido ou um animal de estimação também deve ser observado, pois o prolongamento do sofrimento é outro sinal de alerta aos familiares e amigos.

Por ser uma situação que remete à perda, há uma tolerância um pouco maior em relação ao tempo de recuperação da pessoa. Porém, se os sintomas descritos anteriormente passarem a fazer parte do dia a dia de alguém que está lidando com a morte, deve-se ter o mesmo cuidado que em outras situações.

De acordo com Vieira Filho, o luto patológico possui algumas características próprias que podem levar ao quadro de depressão.

“Há uma dificuldade maior em aceitar a morte. Cria-se uma amargura dentro de si, além de uma sensação de culpa pela perda, chegando inclusive a evitar falar e frequentar lugares que remetem àquela pessoa que se foi”, ressalta.

Sem preconceitos

Seja após uma perda ou em qualquer outro momento delicado vivido por alguém, o quadro depressivo jamais deve ser classificado como “uma tristeza comum”.

Segundo Kanomata, menosprezar os sintomas apenas piora a situação. “De fato, quando a depressão é subestimada e o sofrimento desvalorizado, torna a pessoa suscetível a críticas como ‘fraca’, ‘preguiçosa’ ou de querer ‘chamar a atenção’. Mas vejo um ponto positivo nessa confusão, quando superestimado, que é poder ter espaço para se falar em depressão. Ainda há muito preconceito em nossa sociedade e falar de depressão traz à tona esse tabu, abrindo possibilidade de falar sobre o tema e assim combater o estigma”, destaca.

O caminho inverso a esse preconceito apresentado na hora de lidar com alguém depressivo é justamente buscar entender o momento do indivíduo. Quando se nota alguns sinais de que a depressão pode estar tomando conta de um familiar ou amigo, o melhor a se fazer é dialogar e mostrar a importância da ajuda profissional para tratar o quadro.

“É comum que as pessoas do convívio identifiquem e acabem recomendando procurar ajuda. Nesse momento tão frágil e sensível, o importante é ter empatia com o sofrimento que aflige o outro. Dessa forma, ele sentirá que tem o apoio da família, aceitará os cuidados e procurará ajuda”, complementa o psiquiatra do Albert Einstein.

Dentro deste cenário, um dos primeiros pontos diz respeito à pessoa reconhecer que a tristeza que sente vem se prolongando por mais tempo do que o esperado. Assim, haverá maior aceitação às indicações de parentes e amigos para que recorra a um psicólogo e/ou psiquiatra para avaliar seu caso.

É muito importante que a pessoa procure dar o primeiro passo na busca de uma solução para um momento de tristeza (ainda que não haja solução imediata), ou na persistência de sintomas que indiquem um quadro de depressão.

Para isso, além do tratamento com um profissional, é muito benéfico falar com pessoas de confiança, sejam elas familiares ou amigos. Além disso, o CVV (Centro de Valorização da Vida), associação civil que possui atendimento 24 horas através do telefone 141 ou pelo site, pode ser outro importante instrumento de auxílio.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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