Depressão atinge 11% da população da terceira idade

27 de julho - 2017
Por: Equipe Coração & Vida

É comum ver idosos com aparência triste, apática, desatentos e desmotivados. Longe de parecer normal, esse quadro pode revelar uma doença devastadora: a depressão.

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Com o aumento da expectativa de vida da população e seu envelhecimento, é preciso analisar alguns conceitos, uma vez que a proporção de idosos sairá dos atuais seis para cada dez jovens e passará a 12 para cada dez jovens em 2030, segundo pesquisa da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).

Além da depressão, os idosos são vítimas de violência, doenças crônicas e quedas.

Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock

Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que pessoas entre 60 e 64 anos de idade representam a faixa etária com maior proporção (11%) de diagnóstico de depressão.

São muitos os fatores que podem levar ao aumento da incidência da depressão na terceira idade, entre eles a aposentadoria e a consequente sensação de inutilidade, a falta de realização profissional, a dificuldade financeira por conta da redução do salário, o isolamento social, as alterações físicas e de saúde e até a perda de familiares e amigos por morte.

“Não há uma vacina contra a depressão. Eventos de vida muito difíceis, grandes perdas e doenças graves podem levar qualquer pessoa à depressão”, afirma a psiquiatra Rita Ferreira, do Programa Terceira Idade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq).

Entretanto, o maior problema está na falta de diagnóstico e de tratamento adequado, pois a doença pode culminar em demência e até mesmo em Alzheimer se não for tratada.  O tratamento inclui mudanças no estilo de vida, inserção social e medicamentos em casos mais graves, desde que haja indicação médica.

Ainda que seja possível tratar a doença, a prevenção é de grande ajuda na maior parte dos casos. Uma boa medida de prevenção contra a depressão é manter uma vida ativa, procurando sair de casa e ter relações sociais.

Pode parecer uma tarefa difícil para um idoso que está com uma condição financeira restrita, mas é possível tomar certas medidas, como começar a ler mais, ouvir música, cozinhar, participar de grupos de pessoas com interesses em comum, frequentar cursos gratuitos, parques e até conversar com o vizinho. Atividade física também é fundamental e uma caminhada diária no quarteirão de casa já serve.

“As medidas gerais para a saúde e o bem-estar do idoso são as mesmas que o protegerão das doenças crônicas: atividade física de rotina, relacionamento com amigos e com os familiares, ler, dançar, ouvir música, tentar aprender novos conhecimentos, procurar ser útil a alguém, enfim, cuidar-se de um modo geral”, aconselha a psiquiatra.

O papel da família é essencial para evitar a depressão do idoso, principalmente para identificar os sintomas da doença. Além da tristeza e da apatia, esquecimentos, dores sem causa clínica, mau humor, choro fácil e emagrecimento dão pistas de que algo não está indo bem.

“A família precisa apoiar essa pessoa e também estar atenta aos possíveis sintomas de depressão e levar ao médico quando necessário, se interessando pelo seu idoso e acompanhando o tratamento”, diz a psiquiatra.

Violência

Em 2015, o Disque 100, serviço de recebimento de denúncias contra violações de direitos humanos, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, registrou mais de 32 mil denúncias referentes a violações contra os direitos dos idosos, sendo negligência e violência psicológica as duas principais queixas.

Na maioria dos casos, as violações acontecem dentro da casa da vítima e os filhos são os principais suspeitos.

“Idosos são, em sua maioria, pessoas mais vulneráveis, frágeis, e as agressões acontecem dentro de quatro paredes, muitas vezes com conivência da sociedade”, reforça Geilson Santana, psiquiatra e psicoterapeuta.

O médico alerta ainda que cuidar dos outros é uma tarefa que demanda bastante tempo e disposição, o que pode gerar uma sobrecarga para os cuidadores, levando-os a desenvolverem stress, que pode ser manifestado em forma de violência contra a pessoa que precisa de cuidados.

“A forma como a velhice é vista pela sociedade, principalmente a ocidental, em que a figura do idoso ainda é representada como alguém inútil, decadente, que requer cuidados, em oposição à supervalorização da juventude, favorece esse cenário, tirando muito a autonomia e autoestima das pessoas mais velhas”, pontua o psiquiatra.

Para reverter esse cenário, é preciso repensar a forma que a sociedade vê a velhice e encarar esse fato de forma mais natural, entendendo a importância de cada fase de desenvolvimento e suas qualidades.

“Além de cultivarmos uma imagem negativa sobre o idoso, são cada vez mais valorizados comportamentos narcisistas, que chegam a quase uma fobia de se envelhecer, traduzidos na exacerbação da juventude, com excessos de tratamentos para barrar os avanços dos sinais da idade”, reflete Santana.

Segundo o especialista, é importante repensar a forma que os meios de comunicação e mídia representam os idosos, procurando destacar os aspectos positivos dessa fase da vida, como a sabedoria, a contemplação, as novas experiências.

“Além de integrar essas pessoas na sociedade e na família, tanto nos aspectos afetivos como nas decisões. Do outro lado, o idoso deve se manter ativo, estar inserido em grupos de convivência e cultivar uma imagem positiva sobre si mesmo”, ressalta.

Formas de violência contra a pessoa idosa:

Abuso físico, violência física ou maus-tratos físicos: refere-se ao uso da força física para compelir os idosos a fazerem o que não desejam, para feri-los, provocar-lhes dor, incapacidade ou morte.

Abuso psicológico, violência psicológica ou maus-tratos psicológicos: corresponde a agressões verbais ou gestuais com o objetivo de aterrorizar os idosos, humilhá-los, restringir sua liberdade ou isolá-los do convívio social.

Abuso sexual e violência sexual: referida ao ato ou ao jogo sexual de caráter homo ou heterorrelacional, utilizando pessoas idosas, que visam obter excitação, relação sexual ou práticas eróticas por meio de aliciamento, violência física ou ameaças.

Abuso financeiro e econômico: consiste na exploração imprópria ou ilegal dos idosos ou ao uso não consentimento por eles de seus recursos financeiros e patrimoniais.

Abandono: manifestado na ausência ou deserção dos responsáveis governamentais, institucionais ou familiares de prestarem socorro a uma pessoa idosa que necessite de proteção.

Negligência: diz respeito à recusa ou omissão de cuidados devidos e necessários aos idosos, por parte dos responsáveis familiares ou institucionais.

Autonegligência: relativo à conduta da pessoa idosa que ameaça sua própria saúde ou segurança.

Doenças crônicas

Dados do IBGE indicam que três em cada quatro idosos no Brasil sofrem atualmente com ao menos uma doença considerada crônica, como diabetes, hipertensão e perda de audição, por exemplo.

“Tão importante quanto identificar as doenças e medicá-las [doenças crônicas], é entender o quadro geral do idoso enfermo, de forma que o tratamento de uma enfermidade não impacte negativamente na outra”, explica o geriatra Alexandre Leopold Busse.

Para isso, usam-se hoje cada vez mais equipes multidisciplinares, que irão tratar essas pessoas utilizando outros métodos que não apenas os remédios, como terapia, acompanhamento com nutricionista e fisioterapeutas.

Segundo o especialista, as doenças que trazem maior mortalidade entre os idosos são as doenças cardiovasculares, que são o agrupamento da doença arterial coronariana e cerebrovascular (AVE). Já a doença crônica mais prevalente é a hipertensão arterial.

Busse indicou as dez principais doenças que mais atingem os idosos. Confira:

Doenças cardiovasculares – São as enfermidades que representam maior taxa de mortalidade entre os idosos. O grupo abrange as doenças arteriais coronarianas (DOC), que comprometem principalmente a região do coração, como infarto e angina do peito. Um dos fatores é o envelhecimento do próprio corpo, ocasionando um endurecimento das artérias, que pode levar a aumento da pressão. Sedentarismo, obesidade e tabagismo são alguns dos fatores que favorecem o aparecimento ou agravamento do problema; e o acidente vascular encefálico (AVE), antigamente conhecido como AVC, ou ainda como derrame, um problema ocasionado pela falta súbita de sangue no cérebro. As consequências dependerão de qual área cerebral foi afetada, podendo ocasionar problemas na locomoção, fala e movimentos.

Diabetes mellitus – Com o envelhecimento e mudanças no organismo, como aumento de gordura e perda de massa muscular, o corpo passa a não responder e processar tão bem a insulina e isso favorece o aparecimento da diabetes tipo 2. Isso pode provocar um efeito cascata, com consequência para os rins, coração e visão.

Catarata – Afeta uma parte do olho e atua sobre uma lente chamada cristalino, que com o passar dos anos vai ficando menos transparente, dando um aspecto opaco ao olho. Tratável, o acompanhamento permite identificá-la ainda em seu estágio inicial, facilitando o tratamento. Como a visão fica prejudicada, pode facilitar outro grande problema para idosos, o risco de quedas, que podem ocasionar fraturas.

Enfisema pulmonar – É uma doença que afeta o pulmão, também conhecida como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), decorrente principalmente do tabagismo ou da exposição excessiva à fumaça. O que agrava o quadro do paciente, com o avanço da idade, é que a fisiologia do órgão vai mudando, favorecendo o acumulo de secreções e ficando mais enrijecido.

Doença de Alzheimer – Não é um mal específico da velhice e não é normal o idoso apresentar sintomas relacionados às demências. Quando acontece, é um sintoma de uma doença clínica, podendo tanto ser o indicativo de doença de Alzheimer como também de depressão e requer uma investigação médica para identificar o real problema.

Perda de audição – É um processo normal da fisiologia do sistema de audição. Gradativamente vai perdendo-se, primeiramente, a capacidade de escutar sons agudos (mais fortes). Um fator que agrava a perda é o preconceito que ainda existe de usar o aparelho auditivo, impedindo o controle do problema e tornando ainda mais difícil a adaptação ao dispositivo.

Hipertensão arterial – Popularmente conhecida como pressão alta, segundo dados do Ministério da Saúde, afeta 35% da população brasileira e é responsável por 80% dos casos de derrame cerebral e 60% dos ataques cardíacos no país. É também a doença mais prevalente entre os idosos. Caso não seja feito controle, pode levar a várias complicações para a saúde, como insuficiência cardíaca, doenças coronárias ou mesmo um AVE (acidente vascular encefálico). Como não apresenta sintomas significativos, medir a pressão arterial com frequência auxilia na identificação e controle da enfermidade.

Depressão – Bastante recorrente em idosos, os sintomas nem sempre são fáceis de identificar em pacientes mais velhos, pois não se manifesta com os sintomas clássicos da doença, por isso que o médico e a família precisam estar atentos às queixas. Por exemplo, a queixa não precisa ser tristeza, mas sim a falta de prazer em fazer as coisas e dores atribuídas a queixas específicas.

Osteoporose – Atinge mais as mulheres, uma vez que está relacionada à diminuição da massa óssea, que já é menor no sexo feminino e tem uma diminuição significativa pós-menopausa. Isso torna os ossos mais fracos e a pessoa fica mais suscetível a fraturas, um grande problema para os idosos.

Osteoartrose – É uma doença das articulações, que causa deformidades e dores crônicas, em várias partes do corpo ou em região específica, podendo levar à diminuição das funções, como movimento das mãos e pés.

Busse destaca que todas as doenças têm tratamento ou controle, essencial para enfermidades que não têm cura e que evitam complicações do quadro geral do paciente.

“Quanto antes é feito o diagnóstico, mais efetivo é o tratamento. Com o avanço das doenças, pode-se optar por medidas paliativas, com o objetivo de conferir uma melhor qualidade de vida aos idosos, respeitando suas limitações e proporcionando maior conforto, à medida que a enfermidade avança”, explica o geriatra.

Segundo ele, “olhar especializado do geriatra contribui muito para um diagnóstico e tratamento mais assertivo”.

Quedas

Mais um fator crítico precisa ser notado na vida de um idoso: a queda. Até porque, um tombo depois dos 65 anos pode agravar diversos outros quadros clínicos.

O problema é que a queda é um evento tão devastador quanto comum no caso dos idosos. Não é uma consequência inevitável ao envelhecer, mas pode sinalizar o início de uma fragilidade no indivíduo e mesmo indicar algo mais sério. A partir de uma queda, o custo médico é sempre lembrado – mas o custo psicológico é um fator igualmente grave, pois muitos velhinhos, mesmo após a recuperação, ficam com medo de se movimentar e acabam restringindo suas vidas.

O Ministério da Saúde estima que as quedas ocorram em cerca de um terço dos indivíduos com mais de 65 anos – e que 1 em cada 20 daqueles que sofrem uma queda tenham fratura ou necessitem de internação.

Dentre os mais idosos, acima dos 80 anos, 40% caem a cada ano. Para os que moram em asilos e casas de repouso, o número aumenta ainda mais: a frequência de quedas é de 60% (já que essas pessoas, normalmente, já estão morando em locais assim por terem dificuldades de locomoção).

“Essa já deve ser uma preocupação após os 60 anos, mas fica bastante difícil após os 80”, diz o geriatra Luiz Eugênio Garcez Leme.

“Adaptações em residências podem ser uma boa medida, mas é também o caso de pensar nas causas de uma queda que já ocorreu para que não voltem a acontecer.”

O geriatra explica que as quedas podem acontecer por causas de estrutura, como má iluminação da casa, pisos desnivelados ou escadas, mas também por causas intrínsecas: problemas com a visão da pessoa, como a catarata, labirintite ou mesmo dificuldades de movimentação por dores nas articulações.

O especialista indica que a junção dos fatores internos e externos pode vir a causar ainda mais quedas – e que, feitas as adaptações com corrimãos, apoios e outros itens, é bom “treinar” aquele que irá usá-las para que ele se sinta confiante.

O uso de medicamentos (ou ainda a associação do uso de várias medicações) também pode aumentar o risco de quedas no idoso. Alterações no nível de consciência, da frequência cardíaca ou pressão arterial, sonolência excessiva e tontura são efeitos adversos de certos remédios, elevando a necessidade de observar os mais velhos. Médicos precisam ser consultados sobre isso também.

O “inimigo”, infelizmente, às vezes está mesmo próximo. Pesquisas mostram que 70% das quedas de idosos acontecem dentro de suas casas. Mesmo idosos saudáveis estão sujeitos a tapetes soltos nos pisos, banheiros escorregadios, à presença de móveis que precisam ser desviados ao transitar, a animais de estimação que correm próximos aos donos – e ainda aqueles problemas de julgamento, quando eles decidem, por exemplo, subir em escadinhas e cadeiras para alcançar objetos no alto.

É claro que chegar à terceira idade sendo uma pessoa que pratica exercícios ajuda bastante. Mas precisa ser um hábito.

“Se a atividade física vem sendo mantida há anos, sim, ajuda, pois ela melhora o conteúdo muscular da pessoa. Se, no entanto, era alguém que praticava esportes há muitos anos, mas parou, então nem sempre haverá ganho na idade avançada”, lembra o médico.

E completa: “O que ajuda muitos os idosos é uma atividade leve e que estimule a concentração, como praticar tai chi chuan, por exemplo”.

Com muitos cuidados, uma boa dose de prevenção e hábitos saudáveis assim, a velhice pode muito bem chegar sem tirar o chão de ninguém.

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Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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