Coração e Vida | Metade das crianças seguem influenciadores digitais

Influenciadores digitais e as crianças: entenda por que isso pode ser um problema

Pais precisam exercitar o senso crítico das crianças e se inteirar sobre quem os filhos seguem nas redes sociais

24.07.2018 | por Eli Pereira - Equipe Coração e Vida

Em levantamento feito pela revista Crescer com mais de dois mil pais de crianças de até oito anos, dados mostraram que 47% delas seguem influenciadores digitais e que 38% possuem algum dispositivo eletrônico, seja celular, tablet, computador, entre outros. Em entrevista ao Coração&Vida, a psicóloga Ana Brunetto Tancredi, do Hospital Sírio-Libanês explica quando essa paixão das crianças pode se tornar um problema.

“Normalmente esses youtubers para o público alvo o infanto-juvenil têm também um conteúdo voltado para um estilo de vida de muito glamour, o que é fora da realidade. Isso acaba ocasionando uma influência nas crianças, que passam a ter uma ilusão de uma vida em que as pessoas só viajam e têm brinquedos”, diz Ana.

Proibir o acesso ao celular não é a melhor opção, afirma especialista - Foto: Shutterstock

Proibir o acesso ao celular não é a melhor opção, afirma especialista – Foto: Shutterstock

De acordo com a especialista, há, sim, conteúdos instrutivos passados por alguns influenciadores digitais, porém é preciso que os pais ou cuidadores acompanhem o que a criança assiste e dialoguem sobre o tema. “As crianças são alvos de propagandas, então elas absorvem muito os produtos que os influenciadores mostram”, alerta.

Ana explica que é essencial impor alguns limites sobre o tempo que a criança dedica assistindo aos vídeos ou vendo as fotos. “É importante ter esse diálogo. Os pais precisam avaliar quem é o influenciador, do que ele fala e conhecer bem o conteúdo para ter opinião sobre ele”, recomenda.

No entanto, ela diz que não há uma recomendação única sobre como lidar com essa situação. Proibir ou liberar, por exemplo, pode funcionar para algumas crianças, mas não para outras.

“Cada pai tem uma estratégia. Não há regra sobre como educar os filhos em relação à internet. Há pais que controlam o celular e outros que liberam, mas controlam bem o conteúdo. Alguns não se importam muito, e de alguma forma confiam no que o filho está assistindo. O importante é estar muito atento e muito próximo à criança, e se inteirar do conteúdo. Aí se vai descobrindo a melhor maneira de contornar a situação”, aconselha.

Ana diz que, como o influenciador digital tem um apelo de que a produção é algo muito caseiro – muitos gravam no próprio quarto – as crianças se sentem íntimas e próximas. “Se sentem quase amigas do influenciador, e aí fica uma coisa muito confusa, afinal, quão próxima essa realidade está?”, alerta.

Os pais, então, entram com o papel fundamental de acompanhar a criança nessa jornada. “Só proibir é um caminho perigoso, porque as crianças são questionadoras. O ideal é um caminho com conversa, com entendimento e mostrar o que é legal, o que não é, quais são os valores da família e o que é preconceituoso em algo que a criança assiste”, detalha. Assim, de acordo com a psicóloga, a criança vai desenvolvendo senso crítico sobre aquilo que vê.

Além disso, Ana conta que há pesquisas que mostram que o excesso de luz proveniente das telas – sejam elas celular, tablet, computador ou TV – traz inquietude às crianças, o que pode ser nocivo ao comportamento.

O lado de lá da tela

O problema não mora apenas nos seguidores dos influenciadores digitais. Ana diz também que os próprios influenciadores – quando iniciam na carreira ainda crianças – podem ter problemas caso os pais não os acompanhem.

“Criou-se uma imagem de que o youtuber é uma celebridade. Isso vai formando, na cabeça da criança, ideias fantasiosas e irreais de poder e influência, e é muito fácil se frustrarem depois”, alerta a psicóloga.

“Essas crianças criadoras de conteúdo se expõem de uma forma em que muitas vezes podem sofrer bullying. Afinal, na internet todo mundo vê e fala o que quiser. Os pais têm, de novo, fazer esse papel de intermediador”.

Ana explica que as crianças não são adultos em miniatura, e os pais têm de tomar cuidado para ver quanto de amadurecimento emocional elas têm. “São crianças, e precisam de ajuda para se formar, para se entender e formar seu caráter”, diz.

Leia também: 10 dúvidas sobre o desenvolvimento infantil

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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