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Conheça a importância das bactérias intestinais para a saúde

Desequilíbrio na microbiota intestinal pode estar associado à obesidade e até mesmo a problemas neuropsiquiátricos

9.03.2018 | por Eli Pereira - Equipe Coração e Vida

Antigamente, ninguém se importava muito com o intestino. Sabia-se que algo estava errado quando havia uma dor de barriga persistente ou alguma infecção por vermes. Até que alguém teve a ideia de investigar quais bactérias povoavam o intestino humano e qual função de cada grupo desempenhava. Descobriu-se, então, que quando esses microrganismos não estão em harmonia, pode acontecer a manifestação de diversas doenças, que vão desde obesidade até distúrbios psiquiátricos.

De acordo com a mestranda em biotecnologia pela USP Stefania Pegorin, a microbiota intestinal é muito diversa e, apesar de a composição exata de bactérias de um indivíduo saudável ainda não ser conhecida, alguns grupos servem como sinais de equilíbrio.

Bactérias intestinais têm papel importante na manutenção da saúde e na modulação do sistema imune. Foto: Shutterstock

Bactérias intestinais têm papel importante na manutenção da saúde e na modulação do sistema imune. Foto: Shutterstock

“Cada grupo de bactérias irá metabolizar o alimento de um jeito. Algumas irão armazenar a energia em gordura, outras irão utilizar a energia e gerar subprodutos que são essenciais para o organismo.”

De acordo com a pesquisadora, quanto mais diversos os grupos de bactérias presentes em um indivíduo, maior a chance de equilíbrio. “Geralmente, o intestino de pessoas obesas tem uma diversidade muito menor quando comparado a uma pessoa magra. Essa diferença foi estudada em ratos sem nenhum microrganismo no corpo”, explica.

Stefania conta que bactérias de pessoas magras foram inoculadas em alguns ratos, enquanto outros receberam bactérias de indivíduos obesos. Mesmo com a mesma dieta e quantidade de alimentos para os dois grupos, os que carregavam no intestino a microbiota das pessoas obesas ganharam peso muito mais rápido do que o outro grupo.

“É claro que a dieta consumida pela pessoa também influencia muito, pois cada tipo de alimento vai favorecer grupos específicos de bactérias, portanto uma alimentação balanceada já é um começo para diversificar os microrganismos. Existem, porém, fatores genéticos que devem ser considerados”, esclarece.

O pediatra e chefe da unidade do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo, Ary Lopes Cardoso, explica que a composição das bactérias intestinais já é definida no nascimento, com vantagem para quem nasce de parto normal.

“O nenê que nasce de parto normal recebe um monte de bactérias no canal de parto, e engole”, diz. Com o passar dos dias, a criança que vai sendo amamentada pela mãe recebe uma série de nutrientes chamados oligossacarídeos, presentes no leite humano.

“São eles que vão permitir que as bactérias boas recebidas no canal do parto – as probióticas – fiquem preservadas no intestino e, ao mesmo tempo, vai fazer com que elas se proliferem no intestino grosso da criança”, diz Cardoso.

Esses oligossacarídeos, explica o pediatra, são os prebióticos, ou as “comidinhas” para as bactérias do bem. “As boas bactérias, então, impedem que as ruins se liguem às estruturas do epitélio do intestino, ou seja, não deixam que as bactérias maléficas invadam a criança.” O resultado é um corpo mais saudável.

Criança saudável que também tem menor chance de se tornar obesa no futuro, bem como fica mais protegida durante a vida contra doenças crônicas como diabetes, hipertensão e doenças alérgicas, autoimunes ou inflamatórias.

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Já quem nasce por cesariana está em desvantagem. “O bebê tem uma flora intestinal completamente diferente. Recebe algumas bactérias, mas têm pouquíssimas no intestino. Se não é amamentado, a microbiota fica muito mais complicada”, alerta o médico.

“Estudos mostram, por exemplo, que crianças que nasceram por cesariana têm mais chance de se tornarem obesos do que crianças que nasceram por parto normal.”

Cardoso explica que a indústria está correndo atrás de compostos que possam simular perfeitamente o leite materno para aqueles bebês que eventualmente não consigam ser amamentados. O mais difícil, de acordo com o pediatra, é reproduzir os oligossacarídeos – os prebióticos que alimentam as bactérias boas – transmitidos pelo leite humano.
Segundo ele, já existe uma tecnologia para isso, mas ainda assim não é possível todos os compostos presentes no leite da mãe dentro de uma fórmula infantil. Logo, a amamentação continua sendo a melhor forma de alimentar o bebê.

Autismo e distúrbios psiquiátricos

Stefania conta que pessoas com autismo geralmente também sofrem de problemas gastrointestinais, como a Síndrome do Intestino Permeável, condição que faz com que o intestino permita a passagem de substâncias tóxicas para a corrente sanguínea.

“Uma hipótese é que essas substâncias produzidas por microrganismos sejam prejudiciais ao cérebro. A microbiota de crianças com autismo difere das crianças que não tem autismo, e alguns estudos comprovaram que uma microbiota saudável em ratos permite uma melhora nos sintomas comportamentais do autismo”, diz.

Cardoso comenta que a resposta de usar probióticos na alimentação de crianças autistas não é tão brilhante, mas que se vê, sim, uma resposta. “Garanto que tenho pacientes com autismo e que o uso do probiótico e prebiótico, que juntos são chamados de simbióticos, tem mudado a evolução da doença”, comemora.

“Provavelmente, o impedimento da passagem de toxinas pelo intestino, aquelas que seriam maléficas para os neurônios da criança, vai permitir que se tenha uma modulação do sistema nervoso. É o eixo cérebro-intestino.”

Stefania, porém, alerta que é importante lembrar que o autismo é o resultado de uma interação complexa de fatores genéticos e ambientais, portanto não depende apenas das bactérias.

Segundo cérebro

Não é à toa que as pessoas ficam de mau humor quando o intestino não anda bem. “As bactérias intestinais são incríveis. O intestino é considerado o segundo cérebro, e com razão. Muita coisa no organismo depende das bactérias, tanto que no intestino a proporção de células bacterianas chega a ser 10 vezes maior do que células humanas”, conta Stefania.

Ela comenta que muitas doenças são associadas a uma microbiota falha. “É importante lembrar que as bactérias gostam de ‘viver onde elas trabalham’, portanto é necessário manter uma dieta balanceada que incentive os diversos grupos de bactérias presentes no intestino.”

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Pesquisas promissoras em andamento

– Alzheimer: na mira dos cientistas que desvendam o mundo das bactérias intestinais, Stefania conta que desenvolveram uma hipótese de que a inflamação do cérebro pode ter um papel importante na doença, sendo que ela degeneraria os neurônios.

“Alguns estudos compararam o cérebro de pacientes com Alzheimer e pacientes que morreram devido à velhice, e nesses estudos foi possível observar uma diferença na população e na quantidade de bactérias presentes, sendo que as pessoas com Alzheimer possuíam uma taxa maior de actinobacteria do que de proteobacteria no cérebro de pessoas com Alzheimer em comparação com o cérebro saudável”, explica.

Ela ressalta que, apesar dessa diferença, ainda serão necessários mais estudos, com grupos maiores, para determinar se as bactérias realmente têm um papel no Alzheimer.

– Diabetes: a pesquisadora comenta que algumas bactérias presentes no intestino podem ajudar a combater o diabetes, pois produzem substâncias que vão impedir o aparecimento da doença.

“Esse é o caso do ácido indol propiônico, que é produzido por bactérias e ajuda a proteger o corpo contra diabetes tipo 2. Essa substância tem sua produção aumentada em dietas ricas em fibras e grãos, e é uma das principais diferenças entre pessoas saudáveis e pessoas com diabetes. Esse metabólito também está sendo estudado para proteção dos neurônios em doenças como Alzheimer.”

– Depressão e ansiedade: Stefania explica que alguns estudos atuais têm relacionado a microbiota intestinal com depressão e ansiedade, e que, inclusive, alguns microrganismos estão sendo estudados até para amenizar alterações de humor e deixar as pessoas se sentindo mais corajosas.

– Distúrbios psiquiátricos: Cardoso conta que já há publicações de estudo sobre o papel da microbiota intestinal no manejo de distúrbios psiquiátricos, como psicose e esquizofrenia, bem como no distúrbio de atenção (DDA), hiperatividade, tanto em crianças quanto em adultos.

“Há uma resposta favorável quando você melhora a microbiota deles.” Melhorando a integridade do intestino, especificamente do epitélio, se impede a absorção de toxinas neurotrópicas, que agem no sistema nervoso central podendo agravar distúrbios psiquiátricos, explica o pediatra.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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