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Quando a gravidez é indesejada

Mitos sobre a gestação colaboram para que as futuras mamães sintam-se perdidas quando o bebê não é planejado

7.03.2018 | por Thassio Borges - Equipe Coração e Vida

A cultura popular costuma apontar a gravidez como uma época de plenitude para a mulher, indicando que o nascimento da criança faz surgir também um amor incondicional, nunca antes vivenciado. O discurso é lindo, mas a prática muitas vezes não corresponde às ideias preconizadas, de forma geral. Muitas vezes indesejada, a primeira gravidez pode ser um período turbulento para os pais que são pegos de surpresa com a situação.

Pesquisa recente da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), revelou que mais da metade das brasileiras que tiveram filhos e foram entrevistadas (55,4%) não planejou a gestação.

Foto: Shutterstock

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O estudo entrevistou 23.894 mães após o nascimento de seus filhos e apontou que 25,5% das entrevistadas preferiam esperar mais tempo para engravidar. Cerca de 30% das entrevistadas sequer desejavam engravidar, mesmo futuramente.

Coração & Vida consultou as psicólogas Maria Alice Fontes e Janaína Reis, ambas da Clínica Plenamente, para entender como fica a cabeça das mulheres que engravidam de forma indesejada ou não planejada.

As especialistas apontam que tanto a mulher quanto o homem podem passar por períodos turbulentos após a descoberta da gravidez. No entanto, como é a mulher quem experimenta as diversas modificações corporais logo no início da gestação, “sabe-se que o impacto da gravidez indesejada para ela pode ser maior”.

“Mas vale considerar o momento de vida pessoal de cada um, pois alguns homens podem ter mais dificuldade para aceitar imediatamente uma gravidez indesejada do que a mulher, especialmente quando ainda são adolescentes. Além disso, conseguirá aceitar melhor a gestação aquele que estiver mais aberto e disponível diante da nova realidade, aquele que contar com apoio social e familiar a fim de encarar a experiência de forma mais positiva possível”, avaliam as especialistas.

Aceitar o novo cenário, no entanto, não é algo fácil. A estudante de Arquitetura Isabella Henckes engravidou do namorado durante o último ano da faculdade, aos 21 anos. Não foi algo planejado e o medo foi o sentimento predominante nos primeiros meses de gestação. Medo da reação dos pais, da família, dos amigos e, principalmente, medo de uma situação completamente nova.

“A minha vida mudou completamente. Não imaginava a gravidez agora. Sempre quis ser mãe, mas não nesse momento. Hoje, eu vivo para ele. Tudo o que eu faço, o que sinto, o que como, o que deixo de fazer. É tudo pensando nele”, afirma a jovem mãe, referindo-se ao filho Rafael, que deve nascer na primeira quinzena de março.

Maria Alice e Janaína explicam que a gestação, naturalmente, envolve medos, inseguranças, questionamentos e preocupações. Nesse período, é possível dizer que a mulher poderá vivenciar alguns lutos. Por exemplo, luto do corpo que sofre inúmeras modificações e luto pela perda da liberdade, já que boa parte de suas atividades estarão atreladas ao cuidado do outro, durante um bom tempo, deixando-a em segundo plano.

“O processo de luto é possível ser observado em muitas mulheres que estão vivenciando uma gravidez indesejada. As cinco fases características do processo de luto são: negação, raiva, barganha/negociação, depressão e aceitação. Essas fases não tem um tempo determinado de duração e cada uma pode ser maior ou menor”, explicam as especialistas.

Quando uma gestante permanece estagnada na primeira fase de aceitação do luto (negação), seria aconselhável que pudesse contar com um profissional de saúde mental (psicólogo) que a auxiliaria a desenvolver repertório para lidar com a situação e sentimentos envolvidos, bem como elaborar cada uma dessas fases e enfrentar positivamente a experiência da maternidade.

Quem convive com as futuras mães deve optar pelo acolhimento, mostrando-se disponível, sem julgamentos. Assim, de acordo com as psicólogas, a gestante poderá evoluir no processo de aceitação e ter melhores cuidados consigo mesma e com a gestação.

A presença da família – inclusive do namorado – foi essencial para que Isabella aceitasse melhor a novidade. Situação semelhante à vivida pela estudante de Geologia Juliana Tavares, com a diferença de que esta engravidou durante o primeiro semestre da faculdade. Juliana salienta a importância da família no processo, de modo que pudesse planejar de forma racional o que seria feito dali em diante.

“Acho que planejar como tudo seria me ajudou a ver com mais clareza e perceber que não era o fim do mundo. Que meus sonhos não seriam pausados devido a toda ajuda que eu teria para cuidar do meu filho. Também foi essencial perceber que, apesar do ‘acidente’, um pai que cumpriria seu papel também estaria ali para a criança”, afirma a estudante, mãe de Ravi, de um ano de idade.

Ainda que algumas ideias estejam em constante evolução, ainda recai sobre a mulher o mito de que ela deve aceitar e amar o filho incondicionalmente, desde o anúncio da gravidez. Na prática, no entanto, não funciona dessa forma tão simplista.

“A ideia de que o reconhecido ‘amor incondicional’ nasce concomitante ao nascimento do bebê, pode gerar além de pressão, uma grande culpa e confusão de sentimentos. A mulher precisa compreender que esse vínculo [e tudo que ele representa] se formará através da convivência, dos cuidados e será construído diariamente. A literatura aponta que a negação inicial vai aos poucos sendo substituída por um desejo do bebê, quando há apoio social e familiar”, completam as psicólogas.

Graças ao apoio familiar, Isabella afirma ter conseguido alterar ela mesma sua percepção inicial da gravidez. Agora, mesmo ciente das dificuldades da maternidade, aguarda ansiosa o nascimento do primeiro filho.

“Foi uma mudança mais pessoal. Minha família e meus amigos sempre me pediram calma, indicando que tudo daria certo, mas foi uma mudança minha. Eu precisei me adaptar sozinha, a mim mesma. […] Foi muito difícil no começo, mas quando ‘caí na real’ e vi que… era meu filho, eu entendi que era mãe e teria de fazer meu papel, seguindo em frente por ele”, conclui a estudante.

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Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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