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Tatuagens e piercings: os jovens querem mudanças, mas é preciso atenção!

Observar as questões de saúde e as motivações são importantes antes de realizar os procedimentos

12.01.2018 | por Flávia Pegorin - Equipe Coração e Vida

Tatuagens, piercings e ações desse tipo mexem com a cabeça de adolescentes e jovens adultos. E não é de hoje, é assim há décadas na sociedade ocidental – desde que esses tipos de modificações corporais deixaram de ser rituais milenares entre alguns povos para se tornar algo bem mais corriqueiro.

Hoje, pesquisas e registros em saúde mostram que tatuagens e piercings em várias partes do corpo já não são fenômeno restrito na população – e que os mais jovens são o público que mais cresce.

Foto: Shutterstock

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O norte-americano Pew Research Center, por exemplo, mostrou em uma pesquisa recente que 38% das pessoas entre 18 e 29 anos de idade têm pelo menos uma tatuagem e 23% apresentam piercings em locais diferentes do lóbulo da orelha.

Mas embora as modificações corporais tenham se tornado uma tendência dominante, os especialistas alertam que elas ainda podem estar associadas a complicações médicas e, entre os adolescentes, precisam ser cuidadosamente observadas.

“Como uma maneira de lidar com todas as mudanças trazidas pela puberdade, o adolescente precisa tomar posse do seu corpo de alguma forma”, explica o psicólogo Flávio Voight, sócio fundador da Oriente Psicólogos Associados, em Curitiba (PR).

“Isso pode acontecer por meio de algum esporte, exercitando a vaidade com a aparência, mudando o cabelo. Alguma coisa precisa ser feita para que ele reconheça aquele corpo como dele”, completa.

Segundo o especialista, a adolescência é uma fase de lidar com a possibilidade de uma vida social e um modo de agir diferentes dos impostos pela família. Por isso, surge a experimentação com o corpo.

Algum tempo atrás, acredita Voight, as experimentações eram mais “internalizadas”, às vezes com o uso de drogas e alucinógenos, mas hoje os adolescentes têm se empenhado em experimentar o corpo com as tatuagens e outras modificações do gênero.

“É um processo natural da adolescência, mas modelado pelos tempos. E é importante para os pais respeitarem esse processo nos filhos, mas também colocarem limites para que esses não façam grandes alterações corporais irreversíveis em uma fase que também é muito marcada pela impulsividade e pela incerteza”, completa.

Uma questão de refletir

Práticas tão antigas quanto a história do homem, tatuagens e perfurações não são uma grande novidade. E conscientes de que os mais jovens ainda se encantam com as interferências corporais, médicos da associação de pediatria norte-americana publicaram recentemente, pela primeira vez, recomendações sobre o tema (voltadas a pediatras, pais e os próprios jovens).

A ideia do documento, publicado em forma de artigo na revista Pediatrics, não foi fazer julgamentos morais ou estéticos, esclareceu David Levine, professor da Faculdade de Medicina Morehouse, em Atlanta, e um dos autores das recomendações.

O que os médicos pretenderam foi esclarecer sobre os possíveis riscos dessas práticas para ajudar na decisão de fazê-las ou não.

“Na maior parte das vezes, os adolescentes não sabem como é caro remover uma tatuagem ou que um piercing na língua pode resultar em um dente rachado”, lembrou Levine.

Além disso, tem o lado médico mais “cru”. Tanto a tatuagem quanto a colocação de piercing estão relacionadas com diversas doenças infecciosas – sendo o principal risco a transmissão de doenças como hepatite B, hepatite C e HIV. Sífilis e tétano são outras infecções que podem ocorrer.

Cuidados e atenção

No Brasil, a lei que regulamenta a atividade varia de estado para estado, mas, em geral, apenas maiores de 18 anos podem fazer piercings e tatuagens.

Entre 16 e 18 anos, em alguns estados, os jovens precisam ter uma autorização dos pais ou responsável para o procedimento.

Como a tatuagem consiste na aplicação de pigmentos na pele (na camada derme), por meio de agulhas, sangue e fluidos ficam em contato durante o procedimento.

Depois de acabado o trabalho, o local deve receber antisséptico e ficar coberto por 24 horas (com uso de antibióticos tópicos ou cicatrizantes várias vezes ao dia por cerca de duas semanas, sem sol e sem molhar).

Escolher bem um estúdio para piercings e tatuagens, assim, é de extrema importância – onde o material utilizado deve obedecer às normas das agências de vigilância sanitária.

E vale dizer: idade, genética e outros fatores podem influenciar na absorção das tintas e metais usados.

Antes dos 16 anos, por exemplo, o crescimento não se deu por completo – e pode acontecer de um desenho tatuado ficar deformado à medida que a pele segue “esticando” (podendo haver o aparecimento de estrias).

Remover uma tatuagem a laser não é um processo rápido, é doloroso e bastante caro. Para a remoção completa, são necessários de três meses a um ano em sessões com intervalos de um mês.

E vale um alerta final: mesmo as tatuagens temporárias, feitas com henna, são muito arriscadas. Com fama de “inofensivas”, elas são oferecidas em praias, no verão, até mesmo para crianças pequenas. Mas a henna é um componente com alta ação alérgica – e existem casos relatados de choque anafilático e morte.

Além do fator segurança e de todas as questões de saúde associadas, vale sempre avaliar os riscos e pensar, desde muito jovem, se a ideia de modificar o corpo chegou na hora mais correta.

Revisão técnica
Prof. Dr. Max Grinberg
Núcleo de Bioética do Instituto do Coração do HCFMUSP
Autor do blog Bioamigo

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